quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Mas por que ora pois veja bem

Talvez não fizesse sentido mesmo. Ou eu que não sabia explicar muito bem.

Entenda, pequena, as coisas já perderam sua essência faz tempo e não adianta ficar insistindo em algo que, certamente, não vai pra frente. Entende?

Eu me lembro de te ver tatear pelo quarto, com teu vestido. Eu que te dei ele, foi? Não me lembro. Não me lembro de mais nada e não sei se seria do meu feitio lembrar. É?

A tua pequenez fez com que minhas células atrofiassem, mas espera, não quero parecer grosso. É bom, é bom. Eu só queria fazer você caber sem esforço aqui dentro, sem se perder. Talvez nem disso eu lembre, se era muito pequena ou se era muito grande...

A tua grandeza fez com que eu me esticasse todo por ti. Assim fica melhor? Acho que era disso que as pessoas na rua riam tanto. Olhavam, apontavam. Como poderia uma mulher daquele porte com esse senhorzinho. Como poderia?

Mas veja bem, você está conseguindo compreender? Eu sei que quero chegar em algum lugar, só não sei que lugar é esse. Ah, pequena-grande, eu não faço ideia de onde eu vou ou quero chegar. Mas tu me acompanha?

Não.

Não sei, menina. Não sei o que fez você correr e talvez nem você saiba. Só sei que outro dia eu estava lendo meu antigo caderno de anotações do outono passado e te vi lá. De um jeito bem piegas, sem vírgulas, sem nada.

anoiteceu e as coisas ficaram mais frias desde então a culpa é da noite ou do vazio que tu deixastes aqui logo após partir? ei moça olha pra mim eu estou aqui ainda não me deixa assim olha só que eu não sei rimar e tenho toda essa pose de velho elegante formado em Paris mas as coisas não são bem assim do teu lado eu sou ninguém do teu lado eu sou de ninguém eu sou seu mas você vive sumindo e se tu não existisse eu não sei de quem eu seria.


Lembra de como eu pigarreava e colocava a culpa no cigarro? Pobre cigarro, levava a culpa inocentemente. A culpa é dessa minha faringe que já não aguenta mais viver. Pois bem, a minha faringe é um ser vivo separado do meu corpo, certo? Assim como meu pulmão, meu fêmur, rim, epiglote. E coração? Não é teu, nem meu, nem deles. E quem são eles afinal? Pra quem é que a gente grita tanto, louva tanto. Pra quem foi que tu correu? Louca, desvairada, cansada do mundo. Tira as mãos de mim, você não me pertence, eu estou sozinha nesse mundo e não é você nem ninguém que vai mudar isso. Mas, pequena, não fala assim que eu fico sem o que te falar, eu não sou bom com palavras, eu não sou bom em nada, eu só sou bom em ser bom pra ti.

Correu.

Pra longe de mim (ou de si mesma?). Correu forte, ventania, cabelos brincando com a gravidade, boca pálida, vestido brigando com os ventos. Ah, vestido. Foi o que eu te dei? Foi. É. Estranho como tu fica mais linda ainda longe de mim. Correndo de mim. Se libertando de mim.

E será que cheguei em algum lugar? Será que tu chegastes? Deve ter chegado na fronteira de alguma cidade, estado, país, galáxia. Deve estar exibindo a tua silhueta pra outros povos, em outros mundos, outras cores, outros ares.

Tu.

Dançando em outros corpos com o vestido bordado que te dei.
Que eu mandei fazer, pra ti.
Pra te ter, em mim.
Pra ficar, assim.
Sem sentido nenhum. Me sentindo ninguém.
Cada vez maior pra ti. Cada vez menor em mim.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Das coisas que eu não entendo

Não, eu nunca entendi por que preferia o lado esquerdo do que o direito. Nunca entendi por que nunca gostei de bala de iogurte. Nunca entendi por que meu braço se estica tanto e as pessoas me olham torto quando isso acontece. Nunca entendi por que um pulmão é menor do o outro. Nunca entendi por que passei um mês no hospital. Nunca entendi por que todo mundo podia sair no frio e eu não. Nunca entendi por que eu e minha irmã temos o mesmo nome. Nunca entendi pra quê serve o capuz da jaqueta (seria pra cobrir o cabelo?). Nunca entendi por que as pessoas preferem bandas ruins. Nunca entendi por que tô nesse corpo e não no outro. Nunca entendi por que a gente dorme quando tá escuro e acorda quanto tá claro. Nunca entendi por que o Sol é a única estrela que a gente não vê de noite. Nunca entendi por que existe tv aberta e tv à cabo. Nunca entendi por que não consigo dar oi pras pessoas. Nunca entendi por que tenho um olho mais claro do que o outro. Nunca entendi por que tive que fazer aquela biópsia aos três anos. Nunca entendi por que perder a virgindade é uma coisa tão importante. Nunca entendi por que a gente mente pra encobrir verdades. Nunca entendi por que algumas coisas são mais caras que as outras. Nunca entendi por que nossos corpos são diferentes. Nunca entendi por que meu pai desmaiou. Nunca entendi por que minha avó não gosta de mim. Nunca entendi por que meu médico favorito foi demitido. Nunca entendi por que tiram sarro quando digo que gosto de filmes franceses. Nunca entendi por que a gente ama. Nunca entendi por que você demorava tanto tempo pra gozar. Nunca entendi por que me apertavam forte. Nunca entendi por que me chamavam pra'quelas merdas de festa. Nunca entendi a chuva ácida. Nunca entendi a minha professora de história da quinta série. Nunca entendi por que as pessoas tem tanto medo da morte. Nunca entendi por que algumas pessoas sentem adrenalina e outras não. Nunca entendi por que as pessoas se definem em sexo. Nunca entendi por que eu sempre desisto de tudo. Nunca entendi por que eu nunca termino nada.
Nunca entendi por que nunca entendo as coisas.

domingo, 22 de julho de 2012

Niilismo, cinismo e cansaço


Sabe, cara, sei lá. Eu simplesmente cansei, sabe? E as pessoas fazem o maior problema com isso, e qual o problema, afinal? Eu só tô cansado, cara. Cansado de palavras e mentes vazias e de ter que me explicar em cada ocasião. Eu odeio as ocasiões, dá pra entender? Não suporto. Eu não nasci pra participar delas e tampouco para gostar. 

Eu cansei de ser chamado de louco viciado, eu tentava ser muito mais do que isso e não dava, o que eu posso fazer? Eu tentei, cara. Eu ainda tento de vez em quando, mas sem nenhuma esperança. Eu só aponto e saio remando, pra chegar a lugar nenhum, essa é a verdade. Eu cansei de chegar a lugar nenhum e me encontrar as mesmas pessoas perdidas. De perdido basta eu. Eu cansei do mesmo ar, das mesmas caras, das mesmas esquinas, mesmas bancas de jornal, mesmas faixas de pedestre, mesma mão compartilhada, mesmo rodapé de parede, cansei.

Eu me sinto nada por dentro e por fora. Minha aparência tá horrível, desgastada, as pessoas me olham e acham que sou demônio só pelo jeito que eu olho pra elas. Mas eu não faço por mal, você devia me entender, eu não gosto de assustar. Eu quero é ser compreendido, mas ninguém aqui tá nem aí pros meus problemas, não vamos falar de compreensão blá blá blá. To cansado do blá blá blá sem ação, to cansado. To cansado de estar cansado e não achar um mísero poste de luz que funcione pra me agarrar, sabe? Estabilidade, apoio, conforto, qualquer merda que venda numa livraria, qualquer. Não tem nada nem pra me ajudar, me disseram de uns tais remédios, mas o que eu quero não pode ser comprado na porra de uma drogaria, dá pra entender?

Já tentei auto ajuda e aquela porra não funcionou, eu cansei de tentar correr atrás dos meu objetivos. Pra falar a verdade, eu nunca os tive, e se tive já me esqueci. Eu vivo esquecendo o que não é importante, daquilo lá já não sei de mais nada, vamos continuar por favor? Onde eu estava? Ah, cansado. As pessoas nem sequer me olham quando falam comigo, onde já se viu? As pessoas desse mundo não sabem mais pra que os olhos foram feitos. Elas acham que tão aí encrunhados na sua cara só pra você ver o preço das coisas, mas não é! É pra você olhar pro sentimento do outro, olho é feito pra conectar com o outro e só isso. 

Vi muita gente se perder, disso eu não me esqueço. Gente que eu achava que era pra sempre e se tornou só mais um desperdício na minha mente, não sei porque ainda os guardo aqui, mas não é como se desse pra tirar da minha cabeça. Eu sinto falta, sabe? Falta de ser vivo. De viver e das pessoas se importarem se eu estava vivendo bem ou não. Cara, como eu sinto falta do outono. Aqueles bares, a rua de noite, a chuva passageira, eu sinto, mas só sinto. Agora o que eu sinto é pena deles, dessas memórias, eu não sei o que fazer com elas ou com eles. Não são pessoas, são animais. Eles sugam, sabe? Minha essência, minha vitalidade, minha juventude, sugaram tudo e não deixaram nada nem pra eu me afogar um pouquinho. 

O que eu quero? Eu quero a eternidade. Eu sei, eu sei que pareço um maluco sociopata de primeira categoria, mas eu queria era me perder de um jeito bom, entende? Me perder pra me encontrar, mesmo se for pra me encontrar perdido. Eu quero alguém por quem morrer, e outro alguém pra me fazer querer viver. 
Eu quero uma mão qualquer, um dedo, um anel, uma unha, qualquer coisa. Eu quero alguém, cara.
Eu quero parar de me cansar.

sábado, 7 de julho de 2012

Porra, Zaz


Como eu te trago pra perto de mim? Cada vez que eu te puxo você se afasta mais e mais e mais. Eu sei que as coisas com o teu coração não andam bem e que tem milhares de pensamentos explodindo na sua cabeça a cada segundo, mas você pelo menos pensou em como eu estou? Eu não entendo e talvez nunca vá entender o que se passa contigo e isso me irrita, Zaz. Entende? Eu quero te explorar, eu quero entrar na tua pele, nos teus átomos, em cada espaço vazio dentro do teu corpo e borbulhar dentro ti. Zaz, eu quero você em mim. Eu quero você pra mim.

Não vira o rosto, eu tô falando. Será que você não consegue me ouvir? Por que você faz isso? Te dá tesão?Te deixa molhada? Eu preciso saber, Zaz. Eu quero saber. Me conta da tua vida, chora no meu ombro, ri das minhas piadas, compartilha teu sorriso comigo. Não é pra ser tão difícil, meu Deus, eu não quero que seja assim. Eu só quero ser feliz, atirar num ponto e seguir em frente. Quero que você seja meu ponto. Ponto de lucidez, de paz, de fé. Eu só quero alguém pra me desperdiçar, me jogar, fingir que não vai dar tudo errado no final.

Vem pra perto, Zaz. Eu não aguento mais você tão longe. O que eu te fiz? Eu sei que sou desinteressante, mas eu não posso mudar, eu não quero mudar. Caralho. Eu sou horrível e só quero me apoiar e deitar minha cabeça no colo de alguém que vá me dizer que eu não sou tão ruim assim.  

Zaz, eu só quero te puxar pra perto, perto o bastante pra sentir o teu cheiro. Não quero ter que te ver indo embora de novo, que nem você sempre faz assim que eu abro os olhos de manhã. Eu só quero alguém. Eu preciso de alguém. Eu quero que esse alguém seja você. 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Véspera


Tenho procurado pela nossa máquina do tempo. Algo que nos traga de volta ao lugar que jamais devíamos ter saído.
Algo que restaure o que nós éramos e limpe tudo o que tem dentro de ti.
Mas tempo é relativo.

Eu sinto tua falta, você não imagina o quanto.
Eu sinto tua falta, do que tu era antes. Do que tu não parece mais querer retomar.
Eu sinto falta do que nós éramos, quando não havia problemas e só curas.

Eu tenho saudades de quando nosso remédio não era o próprio veneno.

A mão que afaga...



Talvez você tenha bebido tudo e não tenha deixado nada para mim e num ato muito frio e calculista, foi embora. Enquanto eu pensava estar sozinha, me encontrei. Me encontrei perdida e imunda por essas ruas. Com a cara estampada num urbanóide qualquer de alguma cidade que eu nem sei o nome - e nem faço questão de saber, que diferença faria?. 

Ando para trás, acordo em cubículos estranhos, me encontrando na noite com um nó no peito, que parece mais com um escarro preso. Isso não foi feito pela mão humana. não foi.
''O beijo, amigo, é a véspera do escarro''.

Vaguei por alguns corações, e desperdicei todas as oportunidades de te esquecer. Apanhei as lágrimas que qualquer amante derramou pela calçada, gritando pelo amor perdido, pelas almas sugadas nos muros da cidade. Meu orgulho escorreu para ti, e me deixou assim: sozinha, vazia. Nenhuma gota restou, nenhum mísero milímetro.

Eu não quero que você me ouça, eu não quero conversas, eu só quero falar pra ninguém ouvir. As revoluções só acontecem nos livros, nada disso é possível, é tudo muito improvável. A matemática não dá certo, essas imagens que rondam minha cabeça não fazem mais sentido - não que tenham feito algum dia). 
Eu ando pelo mundo desperdiçando gente, desperdiçando suor, saliva, cinzas. E nada é cinza. É tudo de um marrom estranho, motor de caminhão, turbinas elétricas, outdoor, pichações, tudo marrom. 
Por favor, não tente me salvar, eu não preciso de salvação, eu só preciso de gente. 

Levanto-me de mais um dia. Não sei mais se me olho no espelho ou se volto a dormir. Qual seria a diferença? Eu me sinto morta por dentro, eu me sinto oca. A ignorância nos faz perder a visão. Não está nada sob controle. O controle está sobre tudo isso e eu nem faço questão de agarrá-lo e falar pra esse bastardo que sou eu que guio minha própria vida. 
Nada faz diferença alguma. Nem o nada me cativa mais.
Que merda, eu não tenho mais nada.


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Gigante


Para. Eu quero descer. Eu cansei de rodar.
O sol me arde os olhos, mas te deixa cada vez mais feliz. Ok, vamos, mas só mais uma vez. 
E gira, gira, gira, gira. Gira em torno de si, de mim, do mundo, do sol, de nós. 

Eu digo que acabou e que nunca mais vou pisar meus pés nesse brinquedo, mas você não cansa de me olhar e pedir um pouco mais. E giramos, tudo de novo, tudo igual, como se nunca tivessemos experimentado a sensação antes.
Saio tonta, branca, confusa, demente. Me segura, vou cair. Acabou, é a última vez que rodamos.




Ok, só mais uma vez, mas dessa vez é a última, eu juro.