Talvez não fizesse sentido mesmo. Ou eu que não sabia explicar muito bem.
Entenda, pequena, as coisas já perderam sua essência faz tempo e não adianta ficar insistindo em algo que, certamente, não vai pra frente. Entende?
Eu me lembro de te ver tatear pelo quarto, com teu vestido. Eu que te dei ele, foi? Não me lembro. Não me lembro de mais nada e não sei se seria do meu feitio lembrar. É?
A tua pequenez fez com que minhas células atrofiassem, mas espera, não quero parecer grosso. É bom, é bom. Eu só queria fazer você caber sem esforço aqui dentro, sem se perder. Talvez nem disso eu lembre, se era muito pequena ou se era muito grande...
A tua grandeza fez com que eu me esticasse todo por ti. Assim fica melhor? Acho que era disso que as pessoas na rua riam tanto. Olhavam, apontavam. Como poderia uma mulher daquele porte com esse senhorzinho. Como poderia?
Mas veja bem, você está conseguindo compreender? Eu sei que quero chegar em algum lugar, só não sei que lugar é esse. Ah, pequena-grande, eu não faço ideia de onde eu vou ou quero chegar. Mas tu me acompanha?
Não.
Não sei, menina. Não sei o que fez você correr e talvez nem você saiba. Só sei que outro dia eu estava lendo meu antigo caderno de anotações do outono passado e te vi lá. De um jeito bem piegas, sem vírgulas, sem nada.
anoiteceu e as coisas ficaram mais frias desde então a culpa é da noite ou do vazio que tu deixastes aqui logo após partir? ei moça olha pra mim eu estou aqui ainda não me deixa assim olha só que eu não sei rimar e tenho toda essa pose de velho elegante formado em Paris mas as coisas não são bem assim do teu lado eu sou ninguém do teu lado eu sou de ninguém eu sou seu mas você vive sumindo e se tu não existisse eu não sei de quem eu seria.
Lembra de como eu pigarreava e colocava a culpa no cigarro? Pobre cigarro, levava a culpa inocentemente. A culpa é dessa minha faringe que já não aguenta mais viver. Pois bem, a minha faringe é um ser vivo separado do meu corpo, certo? Assim como meu pulmão, meu fêmur, rim, epiglote. E coração? Não é teu, nem meu, nem deles. E quem são eles afinal? Pra quem é que a gente grita tanto, louva tanto. Pra quem foi que tu correu? Louca, desvairada, cansada do mundo. Tira as mãos de mim, você não me pertence, eu estou sozinha nesse mundo e não é você nem ninguém que vai mudar isso. Mas, pequena, não fala assim que eu fico sem o que te falar, eu não sou bom com palavras, eu não sou bom em nada, eu só sou bom em ser bom pra ti.
Correu.
Pra longe de mim (ou de si mesma?). Correu forte, ventania, cabelos brincando com a gravidade, boca pálida, vestido brigando com os ventos. Ah, vestido. Foi o que eu te dei? Foi. É. Estranho como tu fica mais linda ainda longe de mim. Correndo de mim. Se libertando de mim.
E será que cheguei em algum lugar? Será que tu chegastes? Deve ter chegado na fronteira de alguma cidade, estado, país, galáxia. Deve estar exibindo a tua silhueta pra outros povos, em outros mundos, outras cores, outros ares.
Tu.
Dançando em outros corpos com o vestido bordado que te dei.
Que eu mandei fazer, pra ti.
Pra te ter, em mim.
Pra ficar, assim.
Sem sentido nenhum. Me sentindo ninguém.
Cada vez maior pra ti. Cada vez menor em mim.
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