segunda-feira, 29 de abril de 2013

Cala

É tudo meio louco né? Assim, não que ser louco seja ruim, mas entende, é legal sim, eu gosto. Tu gosta? Eu percebi desde o começo que eu me sinto meio chapada quando eu tô perto de ti e isso até que é bom. Eu gosto de ficar chapada. Aliás, eu tava chapada na primeira vez que a gente se beijou.

É estranho porque quando eu entrei no teu quarto tinha um cheiro meio estranho, mas não era ruim, sabe? Era cheiro de mudança, sei lá. Toda tua casa era meio estranha, parecia um pouco com a casa que eu sonhei uma vez. Meio bagunçada.
Eu gostei.

O mais estranho é que eu me senti confortável. Por mais que parecesse que a qualquer momento pudesse ter (mais um) assassinato, eu só queria ficar ali, deitada naquele colchão jogado naquele chão sujo do lado de um monte de roupa e toalha pendurada. Dá pra entender?

 A casa do barbudo era bem ajeitada, tudo arrumadinho, cheirava bem e tal, mas eu nunca me senti muito confortável, entende? Nunca me senti conectada, era estranho. Parecia que eu não me encaixava.

Eu gostava dele sim, gostava. Mas será que gosto mais de ti? É possível? Porque eu não gosto de quantificar as coisas mas parece que pra tudo fazer sentido na minha cabeça eu tenho que quantificar senão dá errado, entendeu? acho que eu to chapada só de pensar em você. é como se eu te fumasse pouco a pouco e quando eu te beijo eu sinto aquela coisa transcendental que só a cannabis proporciona pra gente sei lá é estranho tá entendendo eu to começando a perder o controle dos meus dedos e é como se as palavras só atravessassem minha mente sem dar oi nem tchau elas só vem e vão e quando eu vejo eu já escrevi tudo aqui e não deleto nada porque eu não quero deletar porque eu não quero perder e o Bob Dylan tá cantando bem fundinho na minha cabeça e eu gosto do Bob assim como eu gosto de ti e gosto do teu colchão da tua bermuda rasgada da tua casa bagunçada e do jeito que você bagunça meu cabelo e fica todo suado e da tua boca brincando com a fumaça como se soltasse todos os espíritos ruins que ficam presos no teu corpo só esperando a hora de explodir pra fora e as tuas pernas torneadas que dão um tom assimétrico pro teu corpo que é de menino assim relaxado que nem eu mas eu não tenho as pernas fortes como as tuas porque eu não faço nada na vida além de ficar aqui sentada desenhando e escrevendo umas bobagens que lá no fundinho perguntam se algum dia tu vai ler ou ver ou ouvir ou continuar aqui esse período todo porque em algum momento tu vai embora entende? em alguma hora tu vai me deixar e vai cansar e vai dizer que eu não sabia fazer nada por mais que hoje em dia você negue e eu vou falar alguma merda e fazer alguma palhaçada que vai te irritar mais ainda e tu vai me queimar com teu cigarro e eu vou olhar pra marquinha e sentir uma puta raiva de ti que vive me machucando mas vou sorrir e dar risada porque não consigo guardar rancor e porque sinto muito mais raiva de mim do que de ti porque eu não consigo guardar rancor teu nem de ninguém e meu deus do céu como eu queria guardar rancor de ti como eu queria te odiar te olhar no fundo dos teus olhos pretos e gritar que tu é sim minha fase ruim que você é um lixo e não vai ser nada na vida mas não dá não dá não dá porque tu é sim tu é feito pra mim e eu não sou feita pra ti porque eu quero te salvar e tu não quer ser salvo e eu quero te entender mas tu não quer ser entendido e eu quero te olhar mas tu vira o rosto e me chapa e me consome neurônio por neurônio até eu ficar louca desvairada vagando pelas esquinas procurando por você olhando pros ônibus amarelos e me perguntando se eles passam na sua rua me perguntando se se eu entrar num deles vou te encontrar perdido andando por algum beco da zona leste fumando um cigarro ou pedindo dinheiro no farol porque tu é assim né? tu é assim e eu sei que você é mas eu não consigo deixar de pensar em como eu queria me moldar pra tu me aceitar de uma vez por todas na sua vida no seu coração e nessa merda de colchão jogado no chão sujo dessa casa bagunçada que parece tanto com a minha cabeça.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Explosão cinematográfica

eu queria fazer um filme. um filme de cada pedaço da vida. queria que minhas íris fossem lentes de 18:315mm prontas pra captar qualquer imagem, qualquer cena, qualquer distúrbio descontínuo na paisagem. um filme meu e teu. um filme teu soltando fumaça. um filme de quando o sol vai dando tchau e o céu fica rosa. um filme de quando os estranhos olham pra gente na rua e sorriem. um filme da noite paulistana boêmia. dos jovens perdidos. dos adultos se achando. um filme dos casais estranhos prepotentes com seus narizes empinados. um filme das meninas prontas pra celebrarem sua vida amorosa de merda. um filme de merda. por que não? merda, merda e mais merda. um filme do caos. do tesão. do desejo de ser alguém diferente. um filme dos anseios de uma vida perdida. um filme de esperança desperdiçada, de fé derramada sobre as cabeças de quem menos quer enxergar. um filme dos que não se sentem conectados com o mundo. um filme dos aprendizes a alguma coisa. perdidos. loucos. jovens. pessoas. um filme da chuva batendo no asfalto. da puta barata chorando num bar qualquer. a maquiagem borrada. o batom vermelho. um filme do sexo sem compromisso. do compromisso sem sexo. dos recém-casais. dos ex-namorados. dos encontros carnais. dos desencontros de alma. a troca de fluídos, cheiros, porra, suor, gemidos. de paredes arranhadas. muros rabiscados. um filme que captasse os cheiros. o cheiro de mato. cheiro de poluição. cheiro de rio. cheiro de alma fétida. decomposição. cheiro do que foi e não vai mais voltar a ser. cheiro de bueiros. moradia dos bestas. um filme que traduzisse nossos corpos. que te prendesse em mim. te prendesse em ti. te fizesse enxergar a tu mesmo como tu é e não como eles acham. um filme pra ser exibido numa tela gigante no céu. um retroprojetor de proporções infinitas. com mil olhos vendo tudo. mil almas se enxergando. como câmeras escondidas atrás de cada célula do nosso corpo. pra fazer com que eu, você, a criancinha da fileira da frente com os olhos atentos, a velha da terceira fileira entediada, o advogado atrasado, a artista esperançosa, meus pais, teus pais, os bebês, os velhos, os ricos, os pobres, os carentes de atenção, os sufocados pelo sistema, pra fazer todos esses virarem um só. uma pessoa só. numa tela só. no céu.