quinta-feira, 17 de maio de 2012

A mão que afaga...



Talvez você tenha bebido tudo e não tenha deixado nada para mim e num ato muito frio e calculista, foi embora. Enquanto eu pensava estar sozinha, me encontrei. Me encontrei perdida e imunda por essas ruas. Com a cara estampada num urbanóide qualquer de alguma cidade que eu nem sei o nome - e nem faço questão de saber, que diferença faria?. 

Ando para trás, acordo em cubículos estranhos, me encontrando na noite com um nó no peito, que parece mais com um escarro preso. Isso não foi feito pela mão humana. não foi.
''O beijo, amigo, é a véspera do escarro''.

Vaguei por alguns corações, e desperdicei todas as oportunidades de te esquecer. Apanhei as lágrimas que qualquer amante derramou pela calçada, gritando pelo amor perdido, pelas almas sugadas nos muros da cidade. Meu orgulho escorreu para ti, e me deixou assim: sozinha, vazia. Nenhuma gota restou, nenhum mísero milímetro.

Eu não quero que você me ouça, eu não quero conversas, eu só quero falar pra ninguém ouvir. As revoluções só acontecem nos livros, nada disso é possível, é tudo muito improvável. A matemática não dá certo, essas imagens que rondam minha cabeça não fazem mais sentido - não que tenham feito algum dia). 
Eu ando pelo mundo desperdiçando gente, desperdiçando suor, saliva, cinzas. E nada é cinza. É tudo de um marrom estranho, motor de caminhão, turbinas elétricas, outdoor, pichações, tudo marrom. 
Por favor, não tente me salvar, eu não preciso de salvação, eu só preciso de gente. 

Levanto-me de mais um dia. Não sei mais se me olho no espelho ou se volto a dormir. Qual seria a diferença? Eu me sinto morta por dentro, eu me sinto oca. A ignorância nos faz perder a visão. Não está nada sob controle. O controle está sobre tudo isso e eu nem faço questão de agarrá-lo e falar pra esse bastardo que sou eu que guio minha própria vida. 
Nada faz diferença alguma. Nem o nada me cativa mais.
Que merda, eu não tenho mais nada.


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Gigante


Para. Eu quero descer. Eu cansei de rodar.
O sol me arde os olhos, mas te deixa cada vez mais feliz. Ok, vamos, mas só mais uma vez. 
E gira, gira, gira, gira. Gira em torno de si, de mim, do mundo, do sol, de nós. 

Eu digo que acabou e que nunca mais vou pisar meus pés nesse brinquedo, mas você não cansa de me olhar e pedir um pouco mais. E giramos, tudo de novo, tudo igual, como se nunca tivessemos experimentado a sensação antes.
Saio tonta, branca, confusa, demente. Me segura, vou cair. Acabou, é a última vez que rodamos.




Ok, só mais uma vez, mas dessa vez é a última, eu juro.

sexta-feira, 30 de março de 2012

I

Eu não sei se você conseguiria entender. Não que seja difícil de me entender, sabe? Mas não sei se você teria paciência para ao menos tentar.
As coisas não andam muito bem na minha cabeça, e eu gostaria de achar uma forma de te explicar toda essa frieza com a qual eu venho te tratando. Eu não sei. Eu não sei de mais nada e talvez nunca tivesse ao menos entendido algo do que se passou, ou passa.
Não sei se devo te tratar como presente, futuro ou passado.

Eu cheguei bem perto do final, entende? Cheguei no topo da montanha e, feito criança curiosa, estendi meu corpo inteiro pra ver o que me aguardava lá embaixo, mas eu não sei. Deve doer, não deve? Já doeu em ti?

Suplico para que meu corpo não me traia novamente, deixando marcas de pés por onde eu nem ao menos quis andar. Perdi o controle das minhas mãos e não sei mais se te toco ou se abro a porta para ir embora, não sei mais se digo Oi ou Adeus.

Eu perdi minha cabeça, por favor, entenda que eu estou me perdendo aos poucos enquanto você tenta nos achar.

sábado, 10 de março de 2012

Sigh

Pouco a pouco fui me distanciando daqueles que não me valiam a pena. Das coisas que me traziam prazer, mas não eram sadias. Em passos lentos fui me afastando dos meus costumes rotineiros, dos meus vícios - banais ou não.
De pé em pé, migalha em migalha.
Eliminando um por um do meu corpo, da minha mente e - ouso dizer - da minha alma.
Jogando as dores passadas no lixo mental-corporal pelo qual já não zelava mais há um bom tempo. Incinerei histórias mal contadas que não quero mais ler e memórias que só me traziam peso.
Andei em linha reta, em passos espaçados, aproveitando o vento que bagunçava o meu cabelo e me provava que ainda estou de pé.
Não corri, andei. Não pensei, senti.

Fui no caminho contrário à todas as mentiras que já contei, todas as farsas, trapaças, manipulações.
Limpei os resíduos de dentro de mim até sobrar espaço para quem quiser entrar, velho ou novo, nem que seja alguém só para jogar conversa fora.
Não economizei panos para secar os mares de gelo que tanto reservei dentro do peito, que cedo ou tarde, iriam derreter. E derreteram.
Abri espaço no coração, joguei os neurônios mortos fora, enterrei minhas paranóias.
Esvaziei-me de coisas desnecessárias assim, calma e serena. Como quem acaba de aprender a andar, um pé de cada vez para não tropeçar.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Mofo

Você me achava louca, mas eu sei que na verdade só tentava esconder a única coisa que era certa naquele momento: eu estava certa. Eu olhava para os cantos da sala, para a mesa vermelha que fazia contraste com o chão envelhecido, que fazia contraste com as cortinas roxas, que fazia contraste com os banquinhos de couro branco, que faziam constraste contigo de olhos frios e rugas na testa.

Por que me trouxe aqui de volta? Perguntava dentro da minha cabeça. A incerteza tomava conta do lugar, como se o menor mover dos dedos fosse quebrar essa linha tênue de silêncio que nós dois construímos. Eu pensava, olhava, pensava de novo. Neste ponto você já estava me encarando, como quem se perde nos pensamentos e já não tem mais o controle dos próprios olhos. Engraçado, não? Você me olhar era, dolorosamente, novo.

Estendi a mão para pegar água e para te tirar do seu coma visual. Um gole, dois goles, três goles. Você me encarava.
Caramba, o que mais você quer?

- Não queria gelada? - você disse.
- Não, assim está bom, obrigada.

Sorri, mais por dever do que por simpatia.
Vamos, abra sua boca, movimente sua língua e me diga a maldita resposta. Não é como se tivessemos enganando alguém, o tempo que tínhamos já foi perdido, que diferença faria agora?
Não me mexi. Seus olhos fixos no quadro atrás de mim. Me virei para ver qual era.
Starry Night.

- Nós vimos esse quadro em nosso primeiro encontro - eu quebrei o silêncio
- Sim... - disse você com a voz rouca - estranho como ele fazia tanto sentido naquela época.

Silenciamos.

- Ainda faz.
- Faz? E o que tu vê?
- Estrelas.
- Ah, isso todo mundo vê.
- Não.

Acendi um cigarro e continuei.

- Não quis dizer no quadro, quis dizer nos seus olhos. Seus olhos me lembravam estrelas naquele dia.

Outro silêncio.
Já estava ficando cansada desses joguinhos, não sobraram mais milímetros quadrados do seu corpo para serem observados pelos meus olhos.
Você mexeu no cabelo do modo que sempre fazia e estendeu as mãos para se alongar.

- Você ainda fuma?
- Nunca parei - respondi, seca.

Oito horas.
Nesse ponto eu já imaginava como teria sido meu futuro contigo se eu não tivesse desistido.
Você, no auge dos quarenta anos, sentado numa poltrona de couro branco com um robe cobrindo seu pijama. Estaria eu ali do seu lado? Eu para recolher suas bitucas de cigarro espalhadas pelo chão da casa. Para vir te servir chá e bolacha maizena e depois te dar um beijinho na testa e te acalmar ''Vai ficar tudo bem, amor, logo logo essa louca sai daí e tudo se resolve''. Teria?
E para massagear as suas costas cansadas do trabalho matinal? Rezar contigo o Pai-Nosso toda noite, ir de mãos dadas até o mercado só para comprar alguma besteira que eu senti vontade.
Não teria, não é?

- Não - você disse.

Fui embora, era tudo o que eu precisava.
Enquanto andava desviando das poças me senti na obrigação de voltar e te perguntar como teria sido se eu tivesse insistido. Dei meia volta, pisei no primeiro degrau da escada de mármore. Pensei.
O porteiro já vinha me perguntar o que eu queria.

- Nada, me desculpe.

Acendi um cigarro e fui embora, dando as costas para seu prédio, seu portão e - principalmente - nosso futuro.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Junk

Eu vejo tua pele através da sua roupa, através dos seus cabelos, através da sua saia. Andava nua por aí sem se preocupar com o que os outros pensavam, olhavam ou criticavam. Tu era, é.

Tatuagem na coxa, sem significado, só pra irritar os pais. Seu cabelo manchado se misturava com o tom inconfundível das suas unhas, que combinavam com o batom, que combinavam com os sapatos, que combinavam tanto comigo.

Te vi parada, tomando uma cerveja barata, a única que o teu emprego poderia pagar. Até me ofereceria para te pagar um drink, mas você não me conhece e já me olha como se não gostasse do que vê. E o que tu vê?

Todos os dias eu te via. Eu te via incansavelmente. Nas noites frias em que teu pai te colocava pra fora de casa, ou nas quentes em que você chegava cansada de tanto correr pelas ruas procurando a liberdade.
Tomava café, lia jornal.
Tu continuava com a cerveja na mão, algumas noites fumando e outras falando com algum estranho sobre teu desejo de parar de fumar.

Você ia morrer, ia, mas eu não cansava de te olhar. Eu não cansava de ver os seus cabelos, unhas, lábios, coxas, pele, como se fosse a última vez. Porque ia ser e isso já estava bem claro pra quem quisesse ver.
Mas tu não via.
Tu não via e nem se preocupava com isso.

Da tua sede de viver, menina, eu construí os meus desejos de te ver cada dia, cada hora, cada minuto da minha vida - que seria tão longa e a sua tão curta - só para te ver tragando do último cigarro do último maço do último dia da sua vida.


domingo, 22 de janeiro de 2012

III

E se eu fosse arte abstrata, jogada num canto da sala, você ainda ia me olhar?
E se eu fosse aquela mobília barata, cheia de arranhões, você ainda ia se interessar?
E se eu tivesse uma ponta torta, a mente toda errada, alguma perna morta, seria simples assim?
E se eu ficasse velha, de um dia pro outro, me esquecendo das coisas aos poucos, você ainda se lembraria de mim?