sábado, 11 de fevereiro de 2012

Junk

Eu vejo tua pele através da sua roupa, através dos seus cabelos, através da sua saia. Andava nua por aí sem se preocupar com o que os outros pensavam, olhavam ou criticavam. Tu era, é.

Tatuagem na coxa, sem significado, só pra irritar os pais. Seu cabelo manchado se misturava com o tom inconfundível das suas unhas, que combinavam com o batom, que combinavam com os sapatos, que combinavam tanto comigo.

Te vi parada, tomando uma cerveja barata, a única que o teu emprego poderia pagar. Até me ofereceria para te pagar um drink, mas você não me conhece e já me olha como se não gostasse do que vê. E o que tu vê?

Todos os dias eu te via. Eu te via incansavelmente. Nas noites frias em que teu pai te colocava pra fora de casa, ou nas quentes em que você chegava cansada de tanto correr pelas ruas procurando a liberdade.
Tomava café, lia jornal.
Tu continuava com a cerveja na mão, algumas noites fumando e outras falando com algum estranho sobre teu desejo de parar de fumar.

Você ia morrer, ia, mas eu não cansava de te olhar. Eu não cansava de ver os seus cabelos, unhas, lábios, coxas, pele, como se fosse a última vez. Porque ia ser e isso já estava bem claro pra quem quisesse ver.
Mas tu não via.
Tu não via e nem se preocupava com isso.

Da tua sede de viver, menina, eu construí os meus desejos de te ver cada dia, cada hora, cada minuto da minha vida - que seria tão longa e a sua tão curta - só para te ver tragando do último cigarro do último maço do último dia da sua vida.


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