Você me achava louca, mas eu sei que na verdade só tentava esconder a única coisa que era certa naquele momento: eu estava certa. Eu olhava para os cantos da sala, para a mesa vermelha que fazia contraste com o chão envelhecido, que fazia contraste com as cortinas roxas, que fazia contraste com os banquinhos de couro branco, que faziam constraste contigo de olhos frios e rugas na testa.
Por que me trouxe aqui de volta? Perguntava dentro da minha cabeça. A incerteza tomava conta do lugar, como se o menor mover dos dedos fosse quebrar essa linha tênue de silêncio que nós dois construímos. Eu pensava, olhava, pensava de novo. Neste ponto você já estava me encarando, como quem se perde nos pensamentos e já não tem mais o controle dos próprios olhos. Engraçado, não? Você me olhar era, dolorosamente, novo.
Estendi a mão para pegar água e para te tirar do seu coma visual. Um gole, dois goles, três goles. Você me encarava.
Caramba, o que mais você quer?
- Não queria gelada? - você disse.
- Não, assim está bom, obrigada.
Sorri, mais por dever do que por simpatia.
Vamos, abra sua boca, movimente sua língua e me diga a maldita resposta. Não é como se tivessemos enganando alguém, o tempo que tínhamos já foi perdido, que diferença faria agora?
Não me mexi. Seus olhos fixos no quadro atrás de mim. Me virei para ver qual era.
Starry Night.
- Nós vimos esse quadro em nosso primeiro encontro - eu quebrei o silêncio
- Sim... - disse você com a voz rouca - estranho como ele fazia tanto sentido naquela época.
Silenciamos.
- Ainda faz.
- Faz? E o que tu vê?
- Estrelas.
- Ah, isso todo mundo vê.
- Não.
Acendi um cigarro e continuei.
- Não quis dizer no quadro, quis dizer nos seus olhos. Seus olhos me lembravam estrelas naquele dia.
Outro silêncio.
Já estava ficando cansada desses joguinhos, não sobraram mais milímetros quadrados do seu corpo para serem observados pelos meus olhos.
Você mexeu no cabelo do modo que sempre fazia e estendeu as mãos para se alongar.
- Você ainda fuma?
- Nunca parei - respondi, seca.
Oito horas.
Nesse ponto eu já imaginava como teria sido meu futuro contigo se eu não tivesse desistido.
Você, no auge dos quarenta anos, sentado numa poltrona de couro branco com um robe cobrindo seu pijama. Estaria eu ali do seu lado? Eu para recolher suas bitucas de cigarro espalhadas pelo chão da casa. Para vir te servir chá e bolacha maizena e depois te dar um beijinho na testa e te acalmar ''Vai ficar tudo bem, amor, logo logo essa louca sai daí e tudo se resolve''. Teria?
E para massagear as suas costas cansadas do trabalho matinal? Rezar contigo o Pai-Nosso toda noite, ir de mãos dadas até o mercado só para comprar alguma besteira que eu senti vontade.
Não teria, não é?
- Não - você disse.
Fui embora, era tudo o que eu precisava.
Enquanto andava desviando das poças me senti na obrigação de voltar e te perguntar como teria sido se eu tivesse insistido. Dei meia volta, pisei no primeiro degrau da escada de mármore. Pensei.
O porteiro já vinha me perguntar o que eu queria.
- Nada, me desculpe.
Acendi um cigarro e fui embora, dando as costas para seu prédio, seu portão e - principalmente - nosso futuro.