
Talvez naquele dia o café fosse estar mais amargo, o sapato mais apertado, o trem fosse demorar para chegar. Eu poderia acordar atrasado, com a cara amassada, os olhos bêbados de insônia.
Eu bem que te imaginei cuspindo aquelas verdades na minha cara enquanto eu me envolvia pelo teu cheiro. Talvez me dissesse que o amor acabou, que não teria porquê continuar insistindo em algo que nunca vai pra frente. Que haja força onde um dia houve amor.
Talvez naquele dia tu estivesse mais seca do que o natural, diria que nunca me amou e que me usava para disfarçar essa tua solidão. Diria que meu cheiro pra ti já era enjoativo, que eu já não te dava mais prazer.
Eu poderia morrer.
Câncer.
Aids.
Falência múltipla dos orgãos.
Overdose.
Coração partido.
Seu café poderia ter estado amargo também, seus saltos poderiam estar tortos, seu dia poderia estar tão ruim quanto o meu. Tu realmente devia ser mais feliz sozinha, tu realmente não me merecia.
Imaginei que fosse meu aquele último olhar que deu antes de virar as costas e partir, pisando calorosamente sobre aquele paralelepípedo que te fazia olhar para o chão enquanto andava, preocupada, bitolada, satisfeita.
Desejei que tu caísse e sentisse minha dor, mas dor igual a que eu senti ninguém nunca vai saber como é. Desejei mais um pouco e voltei pro meu recanto de encanto, esperando que algum dia você viesse bater na minha porta, ajoelhasse e pedisse perdão pelo que fez.
Nada.
Tu não bateu, eu não entrei.
E quando voltou, eu já tinha me mudado.