domingo, 22 de janeiro de 2012

III

E se eu fosse arte abstrata, jogada num canto da sala, você ainda ia me olhar?
E se eu fosse aquela mobília barata, cheia de arranhões, você ainda ia se interessar?
E se eu tivesse uma ponta torta, a mente toda errada, alguma perna morta, seria simples assim?
E se eu ficasse velha, de um dia pro outro, me esquecendo das coisas aos poucos, você ainda se lembraria de mim?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Owl

Venho te observando de longe e você nem me vê, e se vê, não liga. Te olho, fixa em ti, escavo o teu muro de concreto para enxergar melhor e me perco dentro da sua complexidade (forçada ou não). Quem diria, o abismo dentro de ti realmente existe e eu sempre duvidei.

Agora você me olha sem-graça, estático, como quem acabou de contar uma piada e está esperando as risadas. Me vejo nua para ti. Seus olhos que entram dentro de mim e eu, que já estou tão cheia, me espremo toda aqui dentro só para que tenha mais espaço para ti. Deixo de lado órgão, coração, orgulho, superioridade, e te faço caber aqui dentro de mim outra vez.

Olhos fartos, cansado, cheios, cobertos pela repugnância que você mesmo construiu e custa em se deixar abalar. Olhos que dizem mais do que as palavras que tu tentava escrever.
Olhos que dizem muito mais sobre o que foi de mim e de você.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

oca.ína

Anda logo pois já estamos atrasados e se perdermos esse trem a minha rotina diária vai por água abaixo água abaixo ouviu? eu sei que me ouviu você se faz de cego surdo mudo besta maltratado mas no fundo tu só quer uma alma pra apoiar os seus pés sujos de pixe eu te conheço bem conheço melhor do que as outras que já rondaram tua silhueta malfeita tua cara cansada seu coração abarrotado dentro desse buraco gigante que é o teu peito sim meu bem nós nos perdemos e o que posso fazer se tu achas que a culpa minha e eu acho que a culpa é minha também? eu me perco no feitio que é o teu mundo imaginário pra eles e pra mim tão real e você leva e lava minhas esperanças fés crédulos razões junto contigo mas anda logo pois já estamos atrasados me segura pra eu não cair pois se eu cair eu me atraso e se eu me atrasar eu me perco e se eu me perder eu não me encontro mais meu amor não me venha com esses punhos fechados e sobrancelhas franzidas eu não gosto dessa situação tanto quanto você mas eu não tive escolha eu não tive nem por um segundo o controle do meu corpo eu não sei mais o que eu estou fazendo aqui e você parece não saber também mas continua me apertando forte no braço pra ver se dessa vez tu deixa uma marca uma mordida tatuagem varizes qualquer coisa que marque na minha pele a dor que nunca mais saiu de dentro do meu peito que agora vaga vazio pelas ruas dessa cidade abandonada meu amor vamos pois eu não posso me perder mais do que já me perdi ao te encontrar me segura pois eu estou caindo dentro de você novamente e isso seria má ideia foi o que me disseram os especialistas analistas psicólogos psiquiatras orixás mãe-diná tarô lobotomia tudo tudo tentei de tudo e nada me tira das mesmas ruas que costumávamos andar quando tu me tinha nas mãos de punhos fechados e vento no rosto você se lembra? nós não nos importávamos com nada nem com o horário do trem o trem vai sair meu amor corre senão nós perdemos e ficamos presos assim juntos pra sempre e isso seria má ideia já te disse isso? má ideia pois me disseram que eu não devia mais te ver porque você causou danos irreparáveis aqui dentro mas quem são eles pra me dizer quem causa danos aqui dentro corre nós já estamos chegando a gritaria está diminuindo e nós finalmente conseguimos sentir o cheiro horrível daquele esgoto a céu aberto que nós costumávamos ficar olhando por horas e horas fingindo não sentir nada segura minha mão e não me solta mais nunca mais sussurre dentro do meu ouvido que nossos passos são predestinados e que teu coração se limita a um medo que se encontra dentro de nós - espero que meus pés se manifestem de uma maneira que acabem não me traindo num momento sou deus e noutro sou fraca fria suja asquerosa e ninguém conseguiria olhar nos meus olhos sem sentirem um medo trovejante de morte e de vida e qual será a minha resposta? cansei de correr na direção contrária ser destacada em mundos e olhares me cruzarem como se fosse arte abstrata sua força me dá vitalidade e eu me encontro perdida num caminho obscuro que dá lugar ao teu coração as coisas não se encaixam mais a morte se aproxima ou é o frio que sai de dentro da alma? temos que correr procurar uma saída encontrar a felicidade mesmo se for à sete palmos vamos gritar pular amar e amar até não dar mais pois o tempo corre, o nariz sangra e a paranóia invade o ambiente o que será isso agora? não sei para onde ir só sei que devo ir devemos ir devemos para alguém isso.

Me perdi.
Perdemos.

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Texto feito junto com a Bibs que escreve pra caralho!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Tô pra lá de qualquer coisa

Hoje acordei pra ser. Só ser, sendo. Acordei pra ser o que era quando não fui mais nada.
Tentei ser o que não era por tanto tempo que do nada um estalo tomou conta da minha espinha e me pôs de volta no meu lugar de origem: o ser. Sendo o ser eu tentei virar aquilo que já não era mais há um bom tempo. Andando entre vielas, correndo nos paralelepípedos, fugindo dos costumos fugais que me enlaçavam e me traziam de volta pra onde eu tentei sair. Sem êxito. Tentei, não poderia fazer mais nada, meu sangue eu já havia doado.

Embarquei um novo membro nisso tudo: o Passado. Carregava-o pra tudo quanto era lugar, onde era permitido lá estava ele, parado e cochichando no meu ouvido. O que era já não interessa mais, ou talvez interesse, mas estou com preguiça de detalhar. Acontece que o Passado já se tornou inválido e cansativo depois de um tempo. Inválido, não inútil, gosto de deixar claro. Parei pra me perguntar se ele tornara cansativo ou eu que estava me cansando das coisas. Conclusão: nada. Nada era o que eu queria ser e talvez não fosse me encontrar por um bom tempo.

Mas não até hoje.
Hoje eu decidi acordar para ser o que sempre devia ter sido antes de me encontrar com tal-companheiro-mencionado-ali-em-cima. Talvez não dê certo, talvez seja perda de tempo. Pode ser que eu corra milhas e milhas procurando o me ego para me deparar com um muro de concreto. Ou quem sabe eu ache.
Quem sabe eu encontre meu ego perdido em alguma esquina, com frio, com saudades, esperando que eu o traga aqui para dentro novamente e o aqueça antes do Passado voltar.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Wallflowers

Existem momentos em que você pensa no quão difícil deve ser se tornar uma flor de parede. Passar despercebido e não ser notada por ninguém. Essas que desabrocharn num lindo arranjo de concreto que ninguém vai poder ver ou ao menos sentir a essência.

Talvez existam momentos em que você queira se tornar invisível, mas não quer dizer que quer ser invísivel, sabe? Tornar-se e ser são coisas diferentes. O ser não muda, o ser é essência pura abatida pelos costumes rotineiros. Tornar-se significa mudar, virar aquilo que você não era e - por algum motivo - tem te chamado mais atenção do que os hábitos anteriores.

O que me leva de volta à flor de parede. Uma flor de parede nasceu pra ser flor, mas tornou-se flor de parede. Quero dizer, a natureza não determinou que ela fosse ficar presa no concreto de uma calçada ou uma casa, mas ela está lá, imóvel. Flores de parede não crescem como as flores normais.
As flores normais crescem para serem flores, já as flores de parede crescem pensando em como voltarem a ser o que eram antes: uma flor normal.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Sobre as coisas que eu perdi.

Eu perdi meus óculos. Perdi meu cabelo comprido. Perdi minhas unhas coloridas. Perdi minhas cores. Perdi minha virgindade. Perdi quem mais me amava. Perdi quem eu mais amava. Perdi alguns amigos. Perdi as palavras. Perdi a razão. Perdi a inspiração. Perdi o ânimo. Perdi pra distância. Perdi o coração. Perdi a naturalidade. Perdi minha essência. Perdi minhas músicas favoritas. Perdi meus livros favoritos. Perdi os shows que eu mais queria ver. Perdi os programas de tevê que não reprisam mais. Perdi a minha infância. Perdi um ano inteiro pensando na mesma coisa. Perdi a saliva. Perdi o tato. Perdi o amor. Perdi pro amor. Perdi minhas chances. Perdi meu passado, Perdi minha melhor amiga. Perdi gente que não era tão importante, mas vai fazer falta. Perdi viagens. Perdi o maldito pacote da Oreo. Perdi minhas roupas favoritas. Perdi a cabeça. Perdi meus lenços. Perdi o isqueiro. Perdi o meu aniversário. Perdi meu cabelo preto. Perdi meu aparelho. Perdi meu sorriso. Perdi a fé.
Perdi 2011 e pedi para que 2012 fosse diferente, mas já perdi as esperanças.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Suspiros acordados e a voz do coração lá no fundo do seu peito que não se cala.
Vai saber, quem sabe.
Uma vez me disseram que amor era isso, se importar mais com o outro do que com si mesmo. Amar mais ao outro do que a sim mesmo.
Não.

Portas abertas para deixar o vento entrar em nossos corpos, corpos penetrando em corpos, a lágrima, o suor, desejo, possibilidades perdidas, pessoas achadas, viadutos, estradas sem direção, planejamentos futuros, você.
Não importa se tem amor, não importa se é amor. Nada disso importa.
O que importa é quando estamos juntos e a individualidade some e dá lugar ao que é nosso.

Quando Eu vira Nós, e Você vira Meu.