Hoje acordei pra ser. Só ser, sendo. Acordei pra ser o que era quando não fui mais nada.
Tentei ser o que não era por tanto tempo que do nada um estalo tomou conta da minha espinha e me pôs de volta no meu lugar de origem: o ser. Sendo o ser eu tentei virar aquilo que já não era mais há um bom tempo. Andando entre vielas, correndo nos paralelepípedos, fugindo dos costumos fugais que me enlaçavam e me traziam de volta pra onde eu tentei sair. Sem êxito. Tentei, não poderia fazer mais nada, meu sangue eu já havia doado.
Embarquei um novo membro nisso tudo: o Passado. Carregava-o pra tudo quanto era lugar, onde era permitido lá estava ele, parado e cochichando no meu ouvido. O que era já não interessa mais, ou talvez interesse, mas estou com preguiça de detalhar. Acontece que o Passado já se tornou inválido e cansativo depois de um tempo. Inválido, não inútil, gosto de deixar claro. Parei pra me perguntar se ele tornara cansativo ou eu que estava me cansando das coisas. Conclusão: nada. Nada era o que eu queria ser e talvez não fosse me encontrar por um bom tempo.
Mas não até hoje.
Hoje eu decidi acordar para ser o que sempre devia ter sido antes de me encontrar com tal-companheiro-mencionado-ali-em-cima. Talvez não dê certo, talvez seja perda de tempo. Pode ser que eu corra milhas e milhas procurando o me ego para me deparar com um muro de concreto. Ou quem sabe eu ache.
Quem sabe eu encontre meu ego perdido em alguma esquina, com frio, com saudades, esperando que eu o traga aqui para dentro novamente e o aqueça antes do Passado voltar.
Uau.
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